O Alienista: o juiz da loucura no Brasil Colônia
- Revista Psitodos Oficial
- 2 de ago. de 2020
- 6 min de leitura
Atualizado: 2 de ago. de 2020
O ALIENISTA: O JUIZ DA LOUCURA NO BRASIL COLÔNIA
EL ALIENISTA: EL JUEZ DE LA LOCURA EN LA COLONIA DE BRASIL

Autora: Ihailana Luize Valongo de Souza*
1. INTRODUÇÃO
Neste trabalho iremos discutir de maneira crítica a forma como as pessoas eram confinadas em hospitais psiquiátricos na época do Brasil Colônia. Nesse sentido, utilizamos à obra O alienista, um clássico da literatura brasileira escrito por Machado de Assis, que retrata observações peculiares sobre as consequências causadas pelo poder ilimitado da ciência, que nos instiga a refletir sobre saúde mental.
O alienista é uma obra onde Machado de Assis expressa críticas através de ironias sobre o que é normal e anormal, além de abarcar o comportamento humano além das aparências, expondo atitudes egoístas, vaidosas e medíocres. Este conto tem como personagem principal o Dr. Simão Bacamarte, um médico renomado, que ao ganhar respeito na Europa e rejeitar as oportunidades de continuar lá decide voltar para sua cidade natal, Itaguaí, para se dedicar a sua profissão.
Nessa perspectiva, iremos dividir a discussão em três momentos, são eles: o bom filho a casa torna, que abordará o ponto de partida do desenvolvimento da história; A casa verde, tratando sobre os momentos de confinamento das pessoas que o alienista julgava inadequadas e percepção da própria loucura, tratando o fim do enredo com uma ponderação importante do médico de alienados.
Esta discussão é relevante, pois abarca assuntos sociais de extrema importância, sobretudo o julgamento social sobre o que é adequado, incitando observações sobre as exigências sociais, que em sua maioria são imposições que circundam decisões e assuntos cotidianamente pertinentes. Outrossim, para estimular reflexões e pesquisas sobre os padrões e relações sociais.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1 O bom filho a casa torna
Inicialmente o conto de Machado de Assis destaca a nobreza e excelência profissional do Dr. Simão Bacamarte, um dos maiores médicos do Brasil, que após conquistar respeito recusou a possibilidade de reger uma universidade na Europa para voltar a sua terra natal, Itaguaí, interior do Rio de Janeiro, cidade que se sustentava com a cana de açúcar e que não se importava com a ciência. Para o médico a ciência era seu único emprego, mas Itaguaí era seu universo, a partir deste ponto é perceptível que o Dr. Bacamarte possuía pretensões para sua terra natal.
Pouco depois de sua chegada em Itaguaí, Simão decide se casar com dona Evarista, uma viúva de aproximadamente 25 anos, que era mal composta de afeição, mas seria capaz de lhe dar filhos. Isto nos faz lembrar da realidade do ser feminino, que devido os aspectos biológicos a capacidade da procriação foi por muito tempo seu único meio de valorização (BADINTER, 1985; ARIÈS, 1986). Porém, as tentativas da concepção foram frustradas restando ao casal o conformismo. Porém, Bacamarte ver na ciência a cura para toda e qualquer mágoa, então decide se aprofundar nos estudo da psiquiatria.
2.2 A casa verde
Empenhado na saúde da alma, o Dr. Simão começa a observar, que os loucos de Itaguaí eram negligenciados, os mansos andavam nas ruas e os demais ficavam enclausurados em suas casas sem receber um tratamento adequado. Assim, com sua perspicácia o médico foi até a câmara da cidade e com argumentos incontestáveis conseguiu autorização para a criação da Casa Verde, o manicômio ou como era comumente conhecido na época, a casa de orates de Itaguaí, para abrigar todos os loucos da região.
Dentro de pouco tempo o médico de alienados conseguiu encher a casa verde de pessoas que ele julgava mentecaptos, o que o deixou cada vez mais obcecado. Dessa forma, Bacamarte começa a enxergar loucura em todos, para ele os que tinham comportamentos inadequados mereciam estar confinados, assim, namoradeiras, fofoqueiros e até os que gesticulavam muito ganhavam a sentença de reclusão. Seu método de tratamento consistia em separar os loucos por categorias e a ministrar medicamentos. O alienista acreditava que desta forma estava alargando os estudos da psicologia.
Porém, trazendo os escritos de Foucault (1987) no livro vigiar e punir, que discute a história da violência e formas de punição para garantir a ordem social inibindo comportamentos incomuns, podemos associar a conduta de juiz do Dr. Simão Bacamarte, com o que Foucault chamou de funcionário da ortopedia moral, que seriam pessoas que ao se sentirem superiores aos demais rotulam o diferente com a intenção de padronizar comportamentos, camuflando sua intrínseca e peculiar mediocridade. Assim, como forma de manter um modelo, uma ordem social, àqueles que Simão julgava anormais eram enclausurados na casa verde.
Entretanto, ao perceber todo este absurdo os "adequados" decidiram se rebelar contra Bacamarte, gerando duas revoltas que tiveram como consequências mortes, reclusões e fortalecimento do discurso do alienista, que em determinado momento chegou a confinar a própria esposa porque a mesma passou uma noite acordada com dúvidas sobre qual roupa vestir em uma festa. É evidente que atitudes inescrupulosas como estas e a certeza de que estava fazendo um grande serviço à humanidade comprovam distorções da realidade no principal personagem desta história.
2.3 Percepção da própria loucura
Agora devido a superlotação na Casa Verde o médico chega à conclusão de que loucos são os que apresentam bom caráter/comportamento, então decide colocar nas ruas todos os que considerou ter comportamentos inadequados, utilizando com os poucos que ficaram no manicômio o método de ciência da realidade, que consistia em discutir com os reclusos a causa do confinamento. Aos poucos todos foram curados do que o alienista chamou de loucura, a paz reinou e o perdão também, então bailes e jantares foram preparados o que no leva a pensar na possibilidade de uma síndrome de Estocolmo coletiva já que Itaguaí passou a ter simpatia por quem lhe intimidou.
Mesmo inconformado, Bacamarte se viu como o maior exemplo da loucura dizendo: sou a teoria e a prática, ou seja, eu sou a própria loucura. Posto isto, se confinou na Casa Verde até o fim de seus dias. Acreditando que estava fazendo caridade, Simão Bacamarte se sentia o dono da moral e da razão e por acreditar no poder ilimitado da ciência Itaguaí foi vítima da sua própria ignorância, da sua negligência com o conhecimento.
3. CONCLUSÃO
Esta obra de Machado de Assis nos faz refletir sobre diversos assuntos, principalmente sobre o que é adequado ou não, se pesquisarmos o significado desta palavra veremos que a mesma nos leva a algo que está apropriado, ajustado ou em perfeita conformidade. Porém, nós seres humanos não somos perfeitos, em alguns momentos vamos tentar nos adaptar, vamos tentar estar em conformidade com a grande massa, mas até mesmo este processo será diferente para cada ser, pois cada um é possuinte de subjetividade e formas de interpretar o mundo ao seu redor.
Beck (2007), pai da Terapia Cognitivo Comportamental descreve, que somos prisioneiros dos nossos pensamentos, existe grandes chances dele ter razão, a exemplo temos o alienista, que diante da frustração iniciou uma jornada obsessiva pela imposição do normal e da ordem social. Ele acreditou, que estava fazendo um bem maior para humanidade quando na verdade tudo se referia a ele mesmo, a sua dor. Se dedicar de tal forma aos estudos foi a maneira que Bacamarte encontrou para lidar com a falta de um filho(a), o que o coloca como egoísta, mas ao mesmo tempo vítima das expectativas sociais.
No final das contas somos prisioneiros dos padrões, ainda que não queiramos. Simão Bacamarte tinha planos antes de chegar em sua terra natal, mas ter sido encurralado pela pressão de deixar um herdeiro e a decepção diante desta situação pode ter sido o gatilho para suas atitudes exageradas. Nesse sentido, por ser a pessoa mais interessada na ciência em uma cidade que não fazia o mesmo, Bacamarte teve autoridade e poder, garantiu que sua verdade era absoluta do início ao fim.
Itaguaí foi vítima da sua própria ignorância, mas não deixou de lado sua dignidade, ao lutar duas vezes contra injustiças levou o alienista a crer que sua conclusão anterior estava equivocada, fazendo-o modificar suas ponderações. Nesta história todos experimentaram um pouco da loucura apresentada por Bacamarte, ao final da história até o próprio médico reconheceu sua loucura e sua autocomiseração foi tão intensa, que se confinou por conta própria no manicômio de Itaguaí pelo resto da vida.
Nesse contexto, vale salientar que a época retratada no livro foi a mais difícil para o quesito saúde mental no Brasil, pois as casas de orates ou manicômios serviam como depósito do estranho, anormal, inadequado, do diferente e devido ao amontoado de pessoas e o desprezo por serem o que eram, ou não eram, os confinados viviam de forma desumana. Mas, por mais que esta época tenha ficado no passado, a supervalorização do padrão social como forma de controle continua presente em nossos dias, por isto é importante refletir sobre as consequências dos padrões sociais e disseminar o respeito pelas diferenças.
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*Bacharela em Psicologia pela Uninassau João Pessoa. E-mail: psicologaihailanluize@gmail.com
Referências
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.
ASSIS, Machado de. O alienista. Editora Companhia das Letras, 2014.
BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
BECK, Judith. Terapia cognitiva: teoria e prática. Artmed, 2007.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. ed 20. Petrópolis: Vozes, 1987. 288p.
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